Análise: Mercado espera juros mais baixos frente o cenário internacional e inflação acima de meta ‘irreal’

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Resiliência inflacionária nos Estados Unidos e resultado chinês no primeiro tri de 2023 são destaques da conjuntura global que cria espaço para uma Selic mais baixa no Brasil 

Por Alberto Sansiviero, Senior Partner da Pipeline Capital Tech.

Uma recente pesquisa do Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças (IBEF) indicou que os principais executivos financeiros e CFOs do País estariam mais preocupados com a crise internacional do que com a brasileira. Não foi esse quadro que se pintou, no entanto, durante o café da manhã realizado pelo IBEF-SP no Bank of America (BofA), mês passado. Na ocasião, as conversas apontavam uma variada gama de cenários, alguns mais otimistas e outros mais pessimistas, mas todos bastante centrados na atual situação brasileira.

A preocupação com as taxas de juros internacionais e a resiliência inflacionária nos EUA e na Europa também estavam muito presentes nas conversas. Segundo análise do BofA, os juros norte-americanos devem subir 0,25% em maio, com posterior estabilização, mas dificilmente ocorrerá uma queda no segundo semestre de 2023, por conta da “persistência” na alta dos preços e custos consequentes.

Sendo assim, o cenário é de mais inflação, gerada pela maior “independência” em relação à China e o mercado se prepara para ver o dólar continuar se desvalorizando. Ainda no contexto internacional, a preocupação com o comportamento do PIB chinês segue no radar, apesar da definição da meta de crescimento de 5% para 2023 e do recente anúncio do Escritório Nacional de Estatísticas da China de crescimento de 4,5% no primeiro trimestre deste ano.

Em síntese, o ambiente fica mais desafiador com juros altos e, em função disto, parece que o mercado deseja apostar em reduções no decorrer de 2023. E Isso vale também para o Brasil!

Por falar em Brasil, o atual ministro da Fazenda, Fernando Haddad, foi apontado como uma surpresa positiva para a maioria dos presentes, já que demonstra “tentar fazer as coisas certas”. Muitos, porém, questionam a sua capacidade de influenciar o presidente Luís Inácio Lula da Silva. Mesmo assim, a avaliação mais aceita é que ele esteve ao lado do presidente nos momentos difíceis, e por isso Lula tem uma dívida e “deve bancá-lo” pelo maior tempo possível.

Já o Arcabouço Fiscal proposto é considerado pior do que o Teto de Gastos, mas que isso “não poderia ser diferente”. O problema, neste caso, estaria nas expectativas dos agentes de mercado. Não é o ideal, mas deve passar fácil no Congresso, que, neste mandato, provavelmente, irá atuar como uma força de moderação para limitar ações radicais do executivo.

Também existe uma clara expectativa que o legislativo aprove demandas razoáveis, voltadas a estimular a economia. Seu próximo tema relevante deve ser a reforma tributária, demanda escolhida pelo atual governo para discutir no Congresso Nacional.

Todos concordam que a meta de inflação de 3,25% não é real, mas poucos acreditam na possibilidade de revisão ou mudança da banda. O Banco Central (BC) pode ajudar a “postergar a expectativa de convergência para a meta”. Esperar a próxima reunião do Conselho Monetário Nacional (CMN) apenas manteria a tensão e aumentaria o desgaste. Dentro dessa perspectiva, na avaliação do mercado, há espaço para o corte na taxa básica de juros.

O próprio Bank of America acredita que o BC deve divulgar uma Selic menor em breve, já que o País carrega juros reais altos há muito tempo. A expectativa é que a taxa termine este ano em 11% ao ano (a.a.) e 2024 em 9% a.a. Ninguém espera juros reais baixos no curto prazo. Espera-se que os juros estabilizem com inflação anual em 4,5% e, mesmo assim, nada abaixo de 9% ao ano. É um ambiente considerado muito desafiador para o setor competitivo, pois algumas empresas não são viáveis no país com juros consistentemente neste patamar.

Por fim, mas não menos importante, o cenário de crédito segue complexo. Há um fly to quality na oferta de crédito. Isso significa que os bancos, principais agentes, estão oferecendo muitas linhas para as maiores e melhores companhias, abandonando o middle market.

O fenômeno faz o dinheiro ficar caro e escasso para a maioria do mercado e, mesmo com um eventual corte de juros, isto não deve mudar no curto prazo. As grandes empresas acabam pressionadas pelos fornecedores que experimentam a escassez do crédito. Elas, porém, não parecem dispostas a fazer o papel de bancos e intermediar a liquidez, tomando o risco de crédito destes fornecedores.

A percepção que resta é de que instrumentos são menos importantes do que a disposição de tomar riscos e, com a taxa básica nos níveis atuais, o cenário seguirá difícil por bastante tempo. Percebe-se ainda que o mercado de capitais precisará de estímulos para suprir as necessidades de crédito do mercado. E, mesmo com os incentivos tributários em perspectiva, apenas as maiores empresas terão acesso a capital, que seguirá restrito para a maioria das organizações, pelo menos no curto prazo.

Por Alberto Sansiviero, Senior Partner da Pipeline Capital Tech.

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